A EDUCAÇÃO MORAL DAS CRIANÇAS NA ESCOLA
A educação moral é a
parte mais importante da missão da escola, porque forma o caráter, purifica os
costumes, desenvolve os bons impulsos do coração e tem sobre a educação física
e a intelectual uma incontestável superioridade.
Quando a criança
passa da família para a escola, trocando os inocentes brinquedos do lar pelas
lides do estudo, é mister que a pessoa que vai desempenhar junto a ela as
funções de preceptor guie com desvelo e sabedoria os seus primeiros passos
através daquele mundo que lhe é inteiramente desconhecido.
Até ali a tenra
criancinha só conheceu a doçura das carícias maternas; mas ao completar 7 anos
e às vezes mais cedo é arrancada à ledice de seus gentis folguedos e passa da
tutela afetuosa de sua mãe para a do professor – uma entidade que ella não
conhece e que por essa razão deve recear e temer.
Desde que o primeiro
sorriso desponta nos lábios da criança deve-se principiar a educá-la, disse-o
um ilustrado sacerdote, e é à mãe que cumpre encarregar-se da primeira educação
do filho e infiltrar-lhe no coração o gérmen do bem e as notas principiais do
caráter.
Dizem que Scott
recebeu a primeira inclinação para a poesia por escutar as canções de sua mãe.
Nas frases do notável moralista Smiles, a infância é como um espelho que no
decurso da vida reflete as imagens que primeiro lhe foram apresentadas.
O professor é
encarregado de continuar a desenvolver os ensaios de educação feitos pelas crianças
no lar, e no desempenho de tal cargo terá muitas vezes que lutar contra
pequenos defeitos nascidos na exagerada indulgência de algumas mães, que deixam
os filhos seguirem os impulsos da índole e os estouvamentos próprios da idade,
sem refletirem nos graves inconvenientes que daí podem resultar.
Se não possuir em
alto grau a paciência e a constância, o professor desanimará ante esses
obstáculos; mas escudado por essas duas grandes virtudes que lhes devam
ornamentar a alma e fortalecê-lo nos momentos de desânimo, chegará a ter bom
êxito e conseguirá afastar do coração dos seus pequenos discípulos os maus
sentimentos que como plantas daninhas queriam ali deixar raízes.
A época mais
importante da vida, como disse Richter é a da infância, que quando a criança
começa a modelar-se por aqueles com quem convive, por isso a influencia do
primeiro professor excederá sempre a dos outros; portanto os pais devem ser
cautelosos na escolha daquele que tem de continuar logo depois deles na
educação moral e intelectual de seus filhos e nunca entregá-los a uma pessoa
destituída de virtudes e incapaz de dar-lhes bons e salutares exemplos.
Hoje que a escola já
não é o pesadelo horroroso que assaltava o sono infantil, nem a prisão sombria
onde se encerravam longas horas as louras creancinhas, hoje que a palmatória e
os castigos vis e estúpidos foram abolidos como indignos da civilização e do
adiamento de nossa sociedade, o menino considera o preceptor como um amigo a
quem deve amar e venerar. É, pois, facílimo a este se aproveitar da influência
de que goza entre aqueles que educa, para colher ótimos e profícuos resultados
na sua nobre missão.
A
infância é meiga, propensa à ternura, sincera nas afeições, ávida de carinho.
Habituada a ouvir desde o berço a voz melífua que a embalava com ternas canções
e a receber suavíssimos beijos dessa providência humana que se chama mãe e que
a cerca de desvelos e cuidados por toda parte, deve continuar a ver no
preceptor aquele vulto simpático a quem ela se inclinava espontaneamente e com
quem se entretinha horas inteiras expandindo seus graciosos pensamentos e
satisfazendo sua inocente curiosidade.
O
professor deve empregar todos os meios para fazer-se amar pelas crianças. Assim
tudo conseguirá delas, porque ninguém resiste ao amor; e uma vez certo da
afeição de seus discípulos poderá aperfeiçoar-lhes os bons impulsos e
tornar-lhes fáceis os deveres da escola.
A
religião e a moral - esses dois elementos indispensáveis para a formação do caráter
podem ser infiltrados nos corações infantis da maneira mais simples.
Um
passeio à beira-mar, uma manhã de estio, uma flor que desabrocha, uma ave que
canta, uma abelha que fabrica mel, uma borboleta que esvoaça podem trazer à criança
a ideia do autor dessas cousas que tanto enlevam e arrebatam sua imaginação
pueril, e o professor terá ensejo de auxiliar-lhe o espírito de observação,
infundindo-lhe ao mesmo tempo o amor às ciências naturais.
Quanto
a instrução moral deve ser dada por meio de narrações singelas, historietas ao
alcance das inteligências infantis, exercícios orais que deverão ser repetidos
para ficarem bem impressos no espírito das crianças, para as quais o melhor
compêndio de moral é o exemplo.
Uma
palavra, uma pergunta, qual quer incidente da vida escolar pode fornecer ao
professor variados temas para essas lições.
O
amor dos pais, a união fraterna, o patriotismo, o respeito a velhice, a
caridade, a benevolência, o amor à verdade e os demais deveres do aluno para
consigo e para com os outros ser-lhe-hão cada vez mais gratos desde que os compreenda
e se habitue a cumpri-los, avigorando os bons sentimentos pelo exemplo e
conselhos que receber.
O
professor deve esforçar-se, sobretudo, para acostumar seus discípulos a fazerem
o bem pelo bem e sem o interesse de prêmios que, longe de serem um estímulo,
trazem sempre como funestas conseqüências a inveja, o orgulho e o
ressentimento.
O
menino deve habituar-se a obedecer, a estudar, a ser afável e condescendente
com os seus condiscípulos, a enxugar as lágrimas alheias, a repartir o pão com
o mendigo, porque são esses os seus deveres e achará na sanção da consciência e
melhor recompensa dos esforços que empregou para vencer a má índole, a
preguiça, o egoísmo etc.
Enfim,
se o professor possuir qualidades morais elevadas e se à vocação juntar uma
instrução completa e uma educação aprimorada concorrerá honrosamente para a
formação do caráter de seus alunos e contribuirá para o desenvolvimento e
progresso de sua pátria realizando a frase do grande Pestalozzi: “O futuro das
nações está nas escolas”.
F CLOTILDE. A QUINZENA. Fortaleza CE, 15 de Março de 1887
In: Mota. Anamélia C. Francisca Clotilde: Uma Pioneira na Educação
e na Literatura do Ceará. Gráfica e Editora Canindé, 2007 pp 21-23
Para quem interessar a leitura na fonte original: https://www.academiacearensedeletras.org.br/revista/Periodicos/A_Quinzena/ACL_A_Quinzena_part02.pdf pp 17-18.
Comentários
Postar um comentário