APOLOGIA À VICTOR HUGO
VICTOR HUGO
Diante do vulto eminente desse grande homem, cujo nome glorioso ocupa uma das páginas mais brilhantes da história, deve-se prosternar na homenagem de um culto, não só a sua pátria como o mundo inteiro.
Victor Hugo – o
Gênio que assombrou o século, a águia altaneira cujos voos se elevaram aos
paramos da imortalidade, o grande poeta, o inimitável escritor, o gigante da
literatura, tem direito a mais perfeita e esplêndida apoteose.
Neste momento vou
recolher algumas das notas que hão de sempre ressoar repassadas de saudade e
admiração pelos âmbitos da França, para com elas formar, senão um panegírico,
pelo menos um concerto de desentoados louvores ao adorável velhinho que tanto
elevou a mulher, idealizando as mais belas criações femininas, e iluminando-as
com as irradiações de seu prodigioso cérebro que se banhava num oceano de luz e
inspiração.
Victor Hugo tem
direito a todos os lauréis que merecem o talento e a verdadeira erudição. Ante
ele devem curvar-se todas as inteligências, dobrarem-se todas as frontes.
Foi maior do que
um monarca, porque teve a única realeza que domina e subjuga os espíritos.
Na sua fronte
brilhava a coroa imarcescível dos predestinados da glória e da imortalidade.
Sobre o seu túmulo
caíram as lágrimas de todos que lhe conheciam a grandeza do gênio e a beleza do
coração, transformadas em um chuveiro de pérolas para mais lhe aformosearem o
diadema imortal.
Ninguém viu no
asilo mortuário onde ele repousava a escuridão pavorosa do sepulcro. Havia
antes o reverbero de uma luz celeste que se não poderá de todo apagar, e
sentir-se-lhe o espírito esvoaçar sobre os restos mortais da matéria.
A morte não fez senão abrir-lhe a senda luminosa que para os
grandes homens vai do sarcófago ao Panteon, e o seu imenso esplendor iluminará
não só a França, como o mundo inteiro.
O peso dos anos, o frio do inverno da vida que lhe roubara o
viço e a força da mocidade, adormecendo-lhe as paixões e esfriando-lhe os
ardores juvenis não puderam diminuir um só grão a intensidade do seu pujante
talento.
Os fios de cabelos encanecidos pela idade acenderam-se
muitas vezes nas labaredas da inspiração, e do mesmo modo que o moço bebera os
segredos da poesia na taça do entusiasmo da juventude, pode o velho enlevado
nos cabelos de ouro da neta idolatrada e no amor da ciência que tanto
engrandecera e honrara, fantasiar o que de mais idealmente belo pode haver na
mente humana, realizando esplêndidas concepções, que semelhantes aos raios de
sol prestes a ocultar-se no poente aqueceram ainda as últimas flores que
nasceram para se desfolharem sobre o seu túmulo.
A poesia, o romance e o teatro enriqueceram-se com as jóias
do cofre precioso de sua inteligência.
Seus trabalhos literários são perfeitas maravilhas, e
ninguém poderá contestar-lhes o subido valor nem lhe empanar o fulgurante
brilho.
É impossível fazer-se uma análise completa dessas
preciosidades literárias. Seria o mesmo que tentar contra todas as estrelas ou
apanhar todas as pérolas do mar. Basta uma de suas obras – Os Miseráveis – para
ostentar a onipotência de seu gênio. Ao lê-la, a mente devassa mundos
desconhecidos, o coração palpita, a alma sonha e os versos estremecem sob as
mais doces e agradáveis sensações.
Por vezes a frase é vibrante, vigorosa e produz o efeito de um choque elétrico, às vezes é meiga, suave, deliciosa como o sabor do beijo maternal; ora sobe em espirais de poesias aos prazeres do céu, ora desce no redemoinho das paixões até os horrores do inferno.
A mulher ocupa sempre um lugar proeminente em todas as suas
obras, e quer se mostre pura ou criminosa deixa os rastros luminosos de uma
alma susceptível de aperfeiçoar-se e engrandecer-se pelo amor.
Em –
Notre Dame de Paris – palpita uma de suas melhores criações femininas – A
Esmeralda.
Em –
Han d’Island – desenrolam-se os horrores do crime, nascido da sede de vingança
paterna. É um homem que se transforma em fera para no delírio de uma febre
infernal beber no crânio do filho assassinado o sangue de uma raça inteira.
Enfim,
em todas as obras de Victor Hugo veem os lampejos de um gênio que deslumbra. É
um gigante que domina com a força colossal da inteligência, com o poder
irresistível da imaginação.
A
França deve vangloriar-se de ter sido a pátria de tão grande homem.
O
enorme prestígio do seu talento eleva-a e engrandece-a, e nunca filho mais
ilustre nem talento mais notável deu-lhe tanta glória e derramou tanta luz
sobre o seu nome.
Victor
Hugo há de fulgurar sempre como estrela de primeira grandeza no céu das letras,
ou antes, como o sol que brilha com luz própria aclarando os astros mais
obscuros da terra.
O
mundo ouvirá extasiado a epopeia que traduzem as obras desse grande homem que
imprimiu nas mais arrebatadoras criações de um beijo de poeta e artista,
enchendo de harmonia e glória o Século XIX.
F. Clotilde. Revista A Quinzena. Fortaleza - CE, 31 de maio de 1887.
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