CONTO: IMPENITENTE

IMPENITENTE (À Alba Valdez)

 

Agonizava lentamente numa placidez de sono enquanto a manhã despontava alvoroçando os pássaros, trazendo as flores em eclosão a agradável carícia de luz e a doçura do rócio vivificante e bom.

O dia que surgia esplêndido e belo se tornava uma ironia pungente à noite que começava a fazer-se dentro de sua alma. Lá fora, as caridades, as alegrias, os hinos da alvorada; na alcova onde ela definhava as sombras, as tristezas, as nênias do crepúsculo.

E aos poucos ia lhe fugindo a vida, sem que um gemido, uma queixa saíssem dos seus lábios esmaecidos, junto a ela o padre balbuciava rezas incitando-a a elevar o espírito as regiões imortais, as amigas choravam baixinho para não perturbar lhe a agonia e o relógio febrilmente os últimos momentos que lhe restavam viver.

_ Filha, disse-lhe o padre, está disposta a se reconciliar com Deus, já lhe entrou na alma a luz benéfica do arrependimento?

_ Não, fez ela com um gesto.

Lembre-se que Deus é todo misericórdia, perdoa aos que choram passados erros está sempre disposto a acolher no amoroso aprisco a ovelha transviada.

Ela olhou fixamente o padre, entretanto o fulgor iluminou lhe o olhar, um quer que fosse de sorriso esboçou-se lhe nos lábios, e fazendo um esforço ingente para falar disse pausadamente, entrecortadamente:

_ Meu padre, deixe-me morrer tranquila. Agora mesmo pensava nele e sonhava que ia morrer ao lado dele; que os lábios recebiam o meu último beijo... Eu não tenho pecados, nunca fiz mal a ninguém. Amei, fui amada, embriaguei-me com o néctar delicioso da paixão... Se é este o meu crime, não quero ser perdoada.

_ Mas filha, o inferno¿ Lembre-se de que a esperam atrozes torturas, se morrer impenitente e que pode ainda conquistar o céu arrependendo dos seus desvarios.

_ Deixai me, meu padre, não me faleis de céu, nem de inferno. Céu tive nos braços dele, inferno quando nos separávamos, irei para onde vão os que amaram. E eu amei tanto! Ah! Pálido sol que te extingues, quantas vezes não aquecestes o coração frio, gelado que pedia amor! E posso ser criminosa¿

Cansada do esforço desviou os olhos já velados pela sombra da morte, do olhar revoltado do padre e fixou-os amorosamente no Christo – o mártir do amor – depois, murmurou baixinho o nome do amante com um murmúrio de prece, adormeceu para sempre.

F. Clotilde. A República. Fortaleza CE, Maio de 1895


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