FRANCISCA CLOTILDE - POEMAS
Francisca Clotilde tinha apenas 14 anos quando veio a público seu primeiro poema.
HORAS DE DELÍRIO
Sem que minha lira não esteja a cantar,
Embora sozinho, nas horas noturnas
Sentado ao terreiro no branco luar.
Um dia dormindo acordei dum delírio,
Tristonho eu saia dum doce sonhar,
Pois via, era um anjo, sentado a meu lado,
Acordo em soluços, me ponho a pensar.
Dirijo -me à beira de um manso regato,
A ver suas águas de leve a passar;
E as águas murmuram ao sopro da brisa
Que vem de repente minha alma agitar.
Procuro uma praia de brancas areias
A ver se a tristeza me vem dissipar.
Mas ouço o murmúrio das ondas queixosas
Que vem suas queixas às praias lançar.
Meu Deus que desdita, que sorte, esta minha,
Que louca saudade me faz delirar,
Procuro esse anjo, no sonho que via,
Mas ouço uma voz mirrada a falar.
Em que pensas, poeta, tristonho, encostado,
A beira da praia a olhar pra amplidão;
Serão os murmúrios das ondas queixosas
Que vem pressurosas oferecer -te oblação?
Porém essas vozes mirradas que ouvia .
Se enlaçam depressa nas asas do vento,
E eu de repente fiquei enleado
Em tênue cadeia sem ter movimento.
Soltei um gemido às vagas queixosas
Que foi de repente à praia bater,
E elas me dizem com voz maviosa:
Que acerba saudade, que louco sofrer.
Mas eu de repente acordei de delírio,
Que sonho tão forte me veio abalar!
Procuro a mão que a mente me fere;
Acho -me sentado ao branco luar.
Descrevendo o delírio que a mente me fere,
Procuro este caso de leve narrar,
Pra que outro ente não seja lesado
Nas asas do vento, às ondas do mar.
Sabei que o poeta cismando deleia
Ao espaço infinito se vai arrojar;
E sua lira de arcanjo com som mavioso.
Procura aos viventes mistério abafar.
JORNAL "CEARENSE". Fortaleza, 01 de Fevereiro de 1877
Somem-se as trevas horríveis
Além desponta uma luz
É a liberdade que surge
Nos horizontes azuis.
Dos lábios puros de um mártir
Nasceu repleta de luz
Traz em seus lábios a paz
É santa...vem de Jesus!
Tem por preceitos sublimes
O amor, a caridade
É grande, imensa divina
Esta sublime deidade.
A sua voz poderosa
Faz heróis na mocidade.
Todo aquele que a defende
Tem por templo a eternidade.
Ergue seu braço potente
Sua bandeira hasteou
Lutando com a tirania
Foi heróica e triunfou.
Aos vis, infames negreiros
Seus nobres filhos mostrou
E o cativeiro maldito
Sob seus pés baqueou.
Qual a Judith da história
Que a seus irmãos libertou
Com um heroísmo sublime
A Holofernes matou.
Na pátria de Tiradentes
A liberdade raiou
E grande, heroica altaneira
O cativeiro esmagou.
No Brasil, pátria de heróis
Não deve haver mais escravos
Não deve esta mancha negra
Tingir a fronte de bravos.
Eia oh! moços cearenses
Avante, avante, marchai
De nossa pátria querida
O cativeiro expulsai.
Coragem! Marchai sem medo
Unidos, vos dando as mãos
É belo dizer sorrindo:
Todos nós somos irmãos.
Terei depois do combate
Os louros verdes da gloria
Que os heróis sempre revivem
No grande livro da história.
Jornal Gazeta do Norte. Fortaleza CE, 06 de Agosto de 1882
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À
MINHA MÃE
Este tempo feliz e tão amado
Que outrora frui:
Chorar ainda uma vez santos amores
Regar com prantos as fanadas flores
Que em botão colhi.
Oh! Meu tempo de infância tão risonho
Qual lindo, perfumado e ameno sonho
Tu passaste subtil!
Mas não posso olvidar-te um só momento
A ti busca saudoso o pensamento
Oh! Meu risonho abril!
Quantas vezes, oh! mãe, em doce enleio
Nessa quadra feliz junto ao teu seio
Contente repousava,
De teus lábios ouvia as falas puras
Que me enchiam a infância de venturas
E feliz me julgava.
E depois de sentir os teus desvelos
De ouvir teus doces, maternais conselhos
Que na alma recolhia
Ia em busca das flores as mais finas
Das brancas rosas, das gentis boninas
Que para ti colhia.
E vivia feliz!... A sombra amante
De teu carinho imenso e tão constante
Achava um doce abrigo,
Mas em breve trocou-se o riso em pranto
Desfez-se de repente o ledo encanto
Tu baixaste ao jazigo.
Fugiram-me as venturas que sonhava,
O porvir de delicias que esperava
Tornou-se uma ilusão:
Desde que baixaste a campa sinto na alma
Uma dor tão cruel que nada acalma
Que punge o coração!
Mas sempre me acompanha tua imagem,
Em horas de tristeza é a miragem
Que alenta o eu sofrer;
Foi ela que guiou-me a felicidade
Que sempre pela senda da verdade
Guiou o meu viver.
O que é nossa mãe? Bem sem igual
Neste mar de ilusão é o farol
Que nos guia o viver;
É a estrela luzente, esplendorosa
Que em noite escura, feia e borrascosa
Deus fez aparecer!
E tu, oh! minha mãe, que lá nos céus
Já habitas feliz aos pés de Deus
Enquanto eu choro aqui
Prepara para mim entre esses gozos
Á paz dos loiros querubins, formosos
Um lugar junto a ti.
O
BEIJA FLOR
Em
manhã linda de Abril
A flor gentil
Erguia
o caule mimoso
E o
beija flor inconstante
Nesse instante
Vinha
afoga-lo amoroso.
Dava de
manso mil beijos
Em desejos
No
níveo colo da Flor
Que
estremecia de leve
E em breve
Estremecia
de amor.
Flor,
não escutes os hinos
Peregrinos
Do
lascivo beija flor
Seus
afagos são fingidos
Fementidos
Pois
ele não sente amor.
Oscula
todas as flores
Seus amores
São
mais ligeiros que o vento,
Foge
dele ó formosa
Linda rosa
Foge
dele num momento
Mas a
flor se balouçava
Desdobrava
A
pétala nívea e louçã
Ofertava
ao beija flor
Seu odor
Naquela
linda manhã
E a
gentil love lace
Lá vilace
Pousar
num jardim além
E vendo
outra flor gentil
Lá subtil
Beijá-la,
louca, também.
Semelhante
ao beija flor
Sem anos
Que
passa a vida a enganar
É o
homem! Não n’o creias
Tu arreceias
Pois ele não sabe amar.
O CEARENSE. Fortaleza CE, 1883
SAUDADES (À Minha Irmã M. J. Thaumathurgo)
Daquelas manhãs formosas,
Quando eu ia a sós contigo
No prado colher as rosas?
Quando tu me perseguias,
Para tomar -me as boninas
Que brilhavam nas campinas
Sorrindo aos beijos do sol?
Depois era a borboleta
Tão alva como o jasmim,
Que pousava no meu ombro
Então chegavas -te a mim,
E com um sorriso fagueiro
Tomavas a coitadinha,
Que segura pela asinha,
Já não podia fugir.
E sempre a roubar -me as flores
Passavas um dia inteiro,
Em vão tentava oculta-las
Nas franças do jasmineiro;
Quando ia para juntá -las
Minhas flores, invejosa,
Eu via nas tuas mãos.
Oh! como eu era feliz,
Naquela idade de encantos,
Quando, contigo à tardinha,
Soltava meus débeis cantos!
Quando no colo materno
Adormecia contente,
E num sonhar inocente
Passava a noite a sorrir!
Mudou -se tudo depressa,
Mirraram -se as minha flores,
Foram pra longe de mim
Meus inocentes amores,
E, quando hoje à tardinha
Já não sinto um doce encanto
E em vez de cantar...soluço!
Oh! belos dias de outrora!
Como aquela luz de inocência
Que em mim brilhava tão linda.
Oh! frescas manhãs de maio,
Meigas falenas rosadas
Porque fugistes de mim?
Já não tem para mim encantos
O despontar da alvorada,
E as aves que em doces treinos
Arrulham de madrugada;
Aquelas brisas faceiras,
As borboletas de neve.
Já não me osculam de leve
A triste fronte pendida!
Já não cintila nos céus
Aquela estrela formosa,
Que as sombras de minha vida
Dissipava esplendorosa,
Tudo sumiu -se...e deixou
Minha alma em triste orfandade
Somente a louca saudade
Eu guardo sempre no peito.
Jornal LIBERTADOR. Fortaleza CE, 26 de Julho de 1884
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O NINHO
(À Oliveira Paiva)
Acorda
o grande estouvado
E o seu
primeiro cuidado
É ir
apanhar um ninho,
Entre
as ramas do ingazeiro
Que
cresce belo, altaneiro
Quase à
borda do caminho.
Subiu
valente e ousado,
O ninho
tão desejado
Nas
mãozinhas agarrou,
Depois,
repleto de gozo,
Com
ele, mui pressuroso
Pra casa
se encaminhou.
– Vem
ver, Neném, que coisinha,
Tão
bela e engraçadinha
Esta
manhã eu achei.
São
dois lindos passarinhos,
Tão
novos, tão bonitinhos,
Um
deles eu dar -te -ei.
E à
irmãzinha mostrava
O ninho
que palpitava
Na sua
mão impiedosa.
A Neném
– toda carinhos
Amimava
os pobrezinhos
Como
uma mãe extremosa.
Mas, de
repente, em seu rosto
Surge a
nuvem de um desgosto,
Falando
sério ao irmão
Ela
diz: – Não fazes bem
Em
roubar à uma mãe
Os
filhos, é má ação!
Vai
levar depressa o ninho
Onde o
tiraste, irmãozinho,
Não
conserves na orfandade
Estes
pássaros implumes
Que
estão soltando queixumes,
Cheios
de dor e saudade.
Pensa
bem: se nos roubassem
A
mamãe, e nos deixassem
Privados
de seu amor,
De nós
ambos que seria?
Qualquer
de nós sofreria
Muitas
angústias e dor.
Põe -te
depressa a caminho,
Leva
com zelo este ninho
À pobre
mãe consternada.
E nunca
mais, meu irmão,
Pratiques
a má ação
De
roubar a prole amada
De uma
mãe – toda ternura;
Pois a
qualquer criatura
Nós
devemos caridade.
Leva as
pobres avezinhas
Que
aqui piam sozinhas.
Dói -me
muito esta saudade.
O
menino arrependido
Tomou o
ninho querido
E pela
estrada voou
No
mesmo ramo tremente
A pôr o
“par” inocente
E
alegre a casa tornou.
Desde
então, quando brincava
Pela
estrada recordava
As
palavras de Neném
– Não
deves mais apanhar
Avezinhas,
nem roubar
Os
filhos à sua mãe.
Jornal LIBERTADOR. Fortaleza 02 de Fevereiro de 1887
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Sion! Vela de horror a tua fronte,
O próprio sol se esconde no horizonte
E a terra de pesar toda estremece.
A ave não gorjeia... A flor fenece,
Soluça e geme aflita a Natureza.
Estranhando dos homens a fereza.
O seu olhar Divino e radiante
Foi cair sobre a Virgem – Mãe amante,
Buscando consolá-la na agonia
E vê-la ainda uma vez naquele dia;
Depois fitando o seu discípulo amado
Lhe diz com doce assento repassado
Da mais funda ternura: Eis tua Mãe!
E a todos nós entregou também
A Virgem Sacro Santa – o castro Lyrio
Que pendia de dor nesse martírio
No manto afetuoso de saudade,
Maria agasalhou a Humanidade.
Eram quase três horas... A neblina
Como aviso do Céu à gente indina
Ensinava a chorar. Um dos ladrões
Na Cruz vociferava imprecações
O outro, humilde, os crimes confessava
E o perdão de Jesus, terno implorava.
O justo agonizava sua fronte
Coroada de espinhos no horizonte
Buscava um lenitivo, uma esperança
Que partisse no Céu, mas nada alcança!
É, que, para remir o pecador
Cumpria-lhe sofrer aquela dor
Dos anjos a formosa legião
Soluçava, transida de aflição
Ao redor de Jesus, a Madalena
Abraçando-se à Cruz cheia de pena
Contemplava em delírio o Corpo exangue
Tornado uma só chaga a verter sangue.
Tudo está consumado, O sacrifício
Do Cordeiro de Deus, ao feio vício
Do homem redimiu. Eia! Exultai!
Patriarcas no Limbo, a fronte alçai,
Vede o Céu que se abre num sorriso,
Passai dessas prisões ao Paraíso.
Cantai hozanas, louros querubins
Tangei as harpas, meigos serafins
Reverdecei oh! Lyrios das campinas
Oh! Aves gorjeais! Flori boninas!
Jesus salvou o Mundo, e a Liberdade
Raiou para culpa da Humanidade.
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CEARÁ
Teu céu azul é sereno,
Quando em abril se matizam
De vicejantes boninas;
Doces vozes se desprendem
Nos galhos por entre os ninhos,
Onde cantam seus amores
Milhares de passarinhos.
A linfa que nos verdores
Desliza sonora e pura
Cicia ternos segredos
Das matas pela espessura;
E a refletir docemente
O azul sereno dos céus
Parece um límpido espelho
Da glória imensa de Deus.
Oh! Meu Ceará querido,
Bela pátria de Alencar,
Com quanto amor te venero
Oh! Como sei te exaltar!
Na fúlgida constelação
Da terra de Santa Cruz,
És a estrela mais brilhante,
Oh! Grande Terra da Luz!
Tem flores, as mais formosas,
Aves de todas as cores,
As borboletas mais lindas,
Os mais gentis beija-flores;
O teu luar argentino,
A se espalhar sobre o mar,
Inspira meiga poesia,
Obriga a gente a sonhar!...
Francisca Clotilde In: Sampaio, Filgueira.
UMA HISTÓRIA (À ALBA VALDEZ)
Nunca
ouviste em pequena,
Minha
cara feiticeira,
Alguma
história fagueira
De
princesa, ou peregrina?
Pois
eu ouvi uma história
Que
agora te vou narrar.
Guardei
-a sempre em memória
E
nunca a pude olvidar.
Olha,
Alba, bem pequena
Ah!
como a gente é feliz!
Tem
se a pureza do lis,
Aberto
em manhã serena.
Contaram
que um rei havia
Tão
néscio, tão orgulhoso,
Que
a filha arcanjo mimoso
Ao
velo sorrir tremia.
E
a todos os cortesãos
Tratava
de modo tal,
Como
se gênio do mal
Agisse
por suas mãos.
Um
dia este rei cruel
Viu
a filha entristecida,
Como florzinha pendida
No
canto de algum vergel.
E
supondo que a criança,
Tivesse
sede de amor,
Que
é o Iris de bonança
Neste
deserto de horror.
Quis
logo brutal e vil
Saber
qual era o segredo.
Que
assim traia se a medo
Naquele
rosto gentil.
E
tendo obtido dela
Saber
que fremente amava
Ao
trovador que cantava
Bem
junto a sua janela.
Mandou-a
logo a prisão,
Como
se fora o afeto.
Sirva
um cárcere infecto,
Ou
possa haver repressão!
Sabes
que foi a donzela?
Fugiu
ao pai vigilante,
Indo
encontrar o amante
Por
noite calmosa e bela.
O
rei, ardendo em furor,
Mandou
depressa matar
Todo
aquele que ao luar
Cantasse
trovas de amor.
Foi
atroz a mortandade,
Por
todo o reino potente
Houve
um rugir de saudade,
Um
choro enorme, plangente.
Mas
breve por toda a corte
Ouviu
-se estranha harmonia,
Que
em pleno azul se perdia
Zombando
da própria morte.
Eram
pássaros a mil
Que
cantavam seus amores
Em
ramos cheios de flores,
Num
bando alegre e subtil,
As
almas dos menestréis,
A
transbordar de carinhos,
Tiveram
nos passarinhos,
Uns
sucessores fiéis.
O
rei assim castigado
Fugiu
medonho e feroz
Guardando
no peito atroz
Um
ódio reconcentrado.
Procura a moralidade
Desta
inocente historinha.
Que
tem talvez a verdade
De
um conto de carochinha.
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