A PRIMEIRA EDUCAÇÃO (F. CLOTILDE)

 

A primeira educação exerce, incontestavelmente, grande influência sobre a nossa vida, e a ela devemos os bons ou maus sentimentos que se agitam em nosso coração.
Na idade em que as impressões mais facilmente se gravam no espírito da criança deve haver o máximo cuidado para que as imagens que lhe forem apresentadas sejam puras e dignas de se refletirem durante o resto de sua existência.
A mãe está incumbida de dar a primeira educação aos filhos, e logo que os balbúcios infantis ― essa música arrebatadora que os anjos ensinam as crianças no berço são substituídos pela palavra, logo que o menino começa a conhecer os objetos que o rodeiam e a distingui-los, é mister que ela intervenha solícita e cuidadosamente para guiar-lhe os primeiros passos e dirigir-lhe a entrada no caminho da existência.
As lições ensinadas pela mãe a seus filhos não são jamais esquecidas, e no decurso da vida quando as paixões se desencadeiam e o mundo estende laços à sua mocidade inexperiente e crédula elas lhes vem à lembrança e são muitas vezes a égide poderosa que os ajuda a vencer os maus instintos e a força das tentações.
O grande moralista Smiles[1] no seu excelente livro o Character nos mostra os benéficos resultados da educação recebida no regaço materno.
As máximas que nossa mãe nos ensinou na linguagem afetuosa que o seu coração lhe transmitiu aos lábios, os conselhos cheios de unção com os quais procurou corrigir nossos defeitos, todos os seus carinhos, todos os seus desvelos gravam-se em nossa alma com uma persistência inalterável.
Através das vicissitudes da vida brilha, sempre como estrela radiante, a imagem de nossa primeira educadora, guiando-nos nos passos difíceis e indicando-nos a senda[2] do bem e da virtude.
Às vezes a morte ou a ausência dela nos separam quando precisamos ainda do conforto de seus beijos e dos conselhos de seu amor.
Então, procurando seguir os seus exemplos, lembrando-nos das palavras que ela nos repetia, sentimo-nos corajosos para lutar e arrostar com as injustiças dos homens e as dificuldades e trabalhos que se nos apresentem.
Se todas as mães compreendessem a sublimidade de sua missão, se todas procurassem desviar dos corações dos filhos os maus sentimentos e neles inocular o germe dos bons, se, não se deixando dominar por uma excessiva condescendência, todas velassem com desvelo pelo desenvolvimento do bem entre eles, não haveria, de certo, no mundo tantos caracteres degenerados, nem tanta gente destituída de virtudes.
Não é a severidade, nem um rigor tão prejudicial como a condescendência mal-entendida que hão de ajudar a mãe em sua difícil tarefa.
O amor, o amor imenso que se oculta no íntimo de sua alma é o auxiliar fortíssimo a que ela deve recorrer para que os seus esforços sejam coroados de bom êxito.
As crianças precisam de carinhos, têm sede de afeições, são por demais susceptíveis de se impressionarem com uma demonstração de ternura e, o que as repreensões e os castigos não podem conseguir, consegue-o facilmente o amor.
Falando-se diretamente aos seus corações vemo-las se comoverem, se emocionarem, moldarem sua vontade à nossa, desejarem agradar-nos obedecendo às nossas prescrições, evitando fazer aquilo que nos pode contrariar.
Mme. Necker[4] tinha razão quando disse:
― É preciso amar as crianças para compreendê-las; advinham-se muito menos pela inteligência do que pelo coração.
Tenho visto crianças travessas e rebeldes se deixarem vencer pela força de uma carícia, outras que os pais julgam incorrigíveis e que entregam à escola com o fim de ficarem livres dela a maior parte do dia, tornarem-se dóceis aos conselhos da professora e obedecerem-lhe com admirável prontidão.
O que prova isto?!
Que a criança, compreendendo que a amavam, tornou-se, por sua vez, amante e dócil, que a ternura protetora com que a envolverem na escola influiu benignamente sobre sua índole e corrigiu-as dos pequenos defeitos que trariam sérias consequências no seu futuro.
Cercai as crianças de amorosas vigilância, evitai que se aproximem de má companhias, fazei-lhes entender seus deveres e tornai-as fáceis e agradáveis, e esses entes encantadores beberão, pouco a pouco, na fonte de vossa ternura os princípios de uma educação moral e sólida que produzirá mais tarde bons e sazonados frutos.

F. Clotilde. Fortaleza – Ceará. 
Almanack Literário Alagoano das Senhoras. Maceió (AL), 1889
http://memoria.bn.br/docreader/707260/205




 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

APOLOGIA À VICTOR HUGO

FRANCISCA CLOTILDE - POEMETOS

CONTO: IMPENITENTE