DATA GLORIOSA (F. CLOTILDE)

 

     Este dia, que comemora a mais bela vitória da liberdade no solo brasileiro, vem acordar-nos na alma todos os entusiasmos, todas as alegrias que experimentamos há três anos.
     Desde que “nos mares verdes bravios da terra de Iracema” não embarcou mais um só escravo, desde que os esforços abolicionistas reuniram-se aos de uma população inteira, dourou-se o horizonte do Ceará à luz da aurora precursora da redenção; e ele viu realizada a grande ideia em 25 de Março de 1884.
     Aqui não há senhores, nem escravos.
     Todos são livres, e pertencem à pátria como cidadãos.
     A liberdade despedaçou as algemas que roxeavam os pulsos dos míseros cativos e decretou solenemente que, entre nós, não haveria mais a bárbara instituição.
     Eis porque invicta província – berço da liberdade – se destaca dentre outras, e tem direito à admiração e homenagens de todo o mundo.
     Cidadão! A pátria livre, mas não tão livre como desejamos...
     Ainda há escravos no Brasil!
     E enquanto todas as províncias não seguirem o nosso exemplo, estará incompleta a nossa augusta missão.
     Coragem! E que na terra de Santa Cruz todos sejam livres e iguais, como os filhos do Ceará que, neste momento beijam os troféus de sua vitória pendentes do altar da Liberdade!
     Há portanto, uma nota dissonante no concerto de nossos hinos festivais.
     Enquanto festejamos o nosso 25 de Março, no sul vive ainda a escravidão, e é esta ideia que vem nos perturbar as puras alegrias.
     Por que não haveis, vós outros, de imitar o exemplo que vos demos?
     Por que a mulher, a gentil e mimosa brasileira que sente o coração confranger-se[1] de mágoa ante o alheio sofrimento há de consentir que, nas plagas [2] do sul, vivam ainda seus irmão oprimidos pelo infamante cativeiro?
     Por que as nossas vizinhas, filhas da Atenas brasileira não hão de defender também a causa santa da libertação?
     É tempo de acordar do sono letárgico da indiferença e de prestar atenção aos gemidos que partem das senzalas.
     Descer a essas lôbregas[3] moradas, sede os anjos redentores dos que ali jazem agrilhoados pelas cadeias de escravidão.
     Despedaçai nos vossos dedos de querubim, restitui essas criaturas à pátria e ao progresso e, um dia sentireis a doce alegria, o ardente entusiasmo que nós hoje experimentamos.
     E poderemos então desferir os nossos hinos de júbilo sem que nos venha ferir o ouvido e gemido de um só brasileiro escravo.
 
Crônica publicada no Jornal Pedro II – Fortaleza, 25 de Março de 1887

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